Um belo barítono


          O barítono carioca Rodrigo Esteves(imagem) brilhou recentemente em sua cidade natal na produção do Trovador, de Verdi, que reabriu o Teatro Municipal reformado, e deixou uma impressão de maturidade artística – além da pura e simples beleza da voz.

          Esteves tem um timbre arredondado e rico de harmônicos que o coloca na classe dos Thomas Allen e Thomas Hampson, apesar de um metal não tão brilhante; mostra uma emissão saudável e uma expressividade soberana, uma arte da dicção e um tranquilo domínio de palco que há cerca de dez anos lhe abrem portas numa interessante carreira internacional baseada na Espanha.

          Por suas apresentações paulistanas do ano passado – um Cavaleiro da rosa com a Osesp, um Barbeiro de Sevilha e uma Cavalleria rusticana no Teatro São Pedro – e pela excelente gravação da Canção da terra de Mahler com Fernando Portari e o Algol Ensemble regido por Carlos Moreno, ele ganhou o Prêmio Carlos Gomes.

          Aluno no Rio, inicialmente, do tenor Alfredo Colósimo, Esteves passou pela experiência do coro operístico, ganhou cancha com a Ópera Brasil de Fernando Bicudo nos anos 1980 e alçou voo para a Espanha a partir de 1991, onde, depois de se aprofundar no repertório do Lied alemão e da canção espanhola e francesa, estreou em 1998 como Schaunard em La Bohème, de Puccini, no Teatro da Zarzuela de Madri.

          Desde então, tem-se apresentado em diferentes cidades espanholas, no Colón de Buenos Aires e no México, em Spoleto e Bussetto, Messina e Cagliari na Itália, no Japão e onde quer que alguma atividade operística subsista no Brasil: Rio, São Paulo, Manaus.

          Se sua ida para a Europa foi uma questão de oportunidade e vontade de crescer, reflete também um relativo esvaziamento da atividade lírica brasileira nos últimos lustros: aqui mesmo nesta coluna já tratamos do “exílio” mais ou menos voluntário de cantores brasileiros como Paulo Szot, Fernando Portari ou Adriane Queiroz.

          Tendo hoje em seu repertório papéis em óperas como a Favorita, O elixir do amor e Lucia di Lammermoor de Donizetti, Pagliacci, de Leoncavallo, Romeu e Julieta e Fausto de Gounod, as Bodas de Fígaro mozartianas e a Cenerentola de Rossini, nosso barítono me pareceu ter uma voz particularmente verdiana, que deve permitir-lhe cantar um esplêndido Rodrigo no Don Carlo de Verdi – o que já fez no Municipal de São Paulo em 2004. Seu Macbeth foi ouvido no Rio em 2005; seu Ford, do Falstaff, em Busseto, e o Renato do Baile de máscaras, em Messina, em 2008.


Entrevista ao Opinião e Notícia

- Como descreveria sua voz? Como a tem trabalhado?
Rodrigo Esteves: No início dos meus estudos, tive muita dificuldade para definir meu registro, pois tenho uma grande extensão vocal. Uns diziam que eu era baixo, outros, que era barítono, e houve até quem dissesse que eu era tenor. Mas a voz não se define somente pela extensão ou alcance, mas também pela cor e as nuances. Existem outras características, como corpo vocal, volume e até a idade do cantor. Eu definiria minha voz como cálida, luminosa. Vários críticos já coincidiram nesse aspecto. Uma voz para personagens heróicos e sensíveis ao mesmo tempo. Faço um trabalho técnico periódico juntamente com o trabalho interpretativo exigido por cada obra.

- Verdi é o seu terreno de eleição?
R. E.: Eu acho que não é o cantor que escolhe um compositor determinado, mas o contrário – ou seja, o tipo de papel ou obra é que escolhe seus intérpretes. Existem cantores que tentam incorporar obras inadequadas a suas características e terminam muito cedo suas carreiras. Acho minha voz apropriada para algumas óperas de Verdi, como Traviata, Trovatore, Don Carlo ou Ballo in maschera.

- O que o atraiu para o canto? Como começou essa aventura?
R. E.: É uma pergunta que remonta à minha infância, pois desde que me conheço por gente gosto de cantar e sentia que a música e o canto eram uma linguagem única para expressar uma parte muito íntima de minha personalidade. Essa parte individual e particular que cada pessoa tem para mostrar ao mundo. Digamos que desde cedo descobri na música e no canto a forma de me expressar diretamente com a alma.

          A confirmação da minha voz como meio de expressão veio se revelando pouco a pouco. Embora eu sempre tenha gostado de cantar, também toquei outros instrumentos, como violão, bateria, flauta ou gaita. Adorava cantar os discos do Queen, Led Zeppelin ou Rush, e na adolescência formei meu próprio grupo de rock (Azul Limão) no Rio de Janeiro. Depois, entrei na faculdade de música da Estácio de Sá e comecei a desenvolver a voz lírica como outra possibilidade real. No canto lírico, comecei como corista, e lentamente fui me aperfeiçoando como solista. Os bons resultados vieram com o tempo e a resposta favorável do público e da crítica.

          Considero o canto lírico uma das máximas expressões da técnica vocal. Ele é, assim, um desafio constante, como no caso de um atleta que tem que se superar a cada dia. E eu adoro desafios.

– Como se deu a decisão de sair do Brasil? O que encontrou de importante lá fora?
R. E.: Em 1990, a companhia Ópera Brasil, da qual eu fazia parte como corista, terminou por falta de verba. Eu tinha economizado um dinheirinho e pensei na possibilidade de tentar algo no mercado europeu, já que tinha ficado desempregado de repente. E foi assim. Queria ir para a Itália, mas tinha alguns contatos na Espanha e o idioma é mais parecido com o português. No início, estudei na Escola Superior de Canto de Madri, enquanto paralelamente trabalhava no coro de câmara da Comunidade de Madri.

          Desde que cheguei à Europa, tive oportunidade de escutar, ver e trabalhar com grandes artistas, maestros e compositores, como Rockwell Blake, Viorica Cortez, Peter Maag, Alfredo Kraus, Joaquin Rodrigo e outros. A história que existe nos grandes teatros europeus e sua organização também são fatores importantes para a evolução e experiência de um artista. O público europeu é um pouco mais frio que o sul-americano, e isso também exige do cantor estar muito seguro no que faz.

- Que sugestões daria para propiciar mais a arte do canto lírico e gerar mais possibilidades para ele no Brasil?
R. E.: Em primeiro lugar, acho que deveria existir um compromisso real dos governantes neste sentido, que haja continuidade na programação dos teatros brasileiros, sem depender tanto de fatores políticos. Embora no Brasil já exista um público que realmente conhece e gosta de ópera, acho que deveríamos abrir o leque de possibilidades nesse sentido, captando a atenção de um publico novo com montagens acessíveis e compreensíveis e a preços populares. Mas fico muito contente ao constatar que hoje em dia existem mais oportunidades do que quando eu saí do Brasil. O fato de eu ter vindo nos últimos cinco anos cantar aqui é um excelente sinal.

- Em que papéis está centrado no momento seu trabalho?
R. E.: Este ano farei o Fígaro do Barbeiro de Sevilha na nova companhia do maestro John Neschling, em Manaus, Curitiba, Belém, Santos e São Paulo. O papel de Ford da ópera Falstaff de Verdi nas Ilhas Canárias, com direção de Giancarlo del Monaco. A Sea Symphony de Ralph Vaughan-Williams em Madri e a Viúva alegre na Sicília.

- Que lugar tem o canto de câmara nas suas atividades?
R. E.: No início de meus estudos, o canto de câmara foi fundamental para aperfeiçoar a técnica e expandir minha cultura musical, assim como meus recursos interpretativos. É uma fonte inesgotável, com estilos muito diferentes. Embora hoje em dia eu cante mais ópera, nunca deixei de me relacionar com a música de câmara, como por exemplo nas recentes gravações de Das Lied von der Erde, de Mahler, pelo selo Algol, e do Réquiem hebráico de Zeisl com a Osesp.

- Quais têm sido suas grandes emoções recentes no palco?
R. E.: Uma das grandes emoções recentes foi ter colaborado estreitamente com Plácido Domingo numa montagem da ópera Ifigênia em Táuris na qual eu era seu “cover” (substituto). Trabalhar ao lado desse gigante da ópera sempre é um privilégio e uma oportunidade de aprender de primeira mão com um dos grandes. Outra foi o fato de me reencontrar com Fernando Bicudo nos palcos, fazendo a produção da Tosca no Teatro São Pedro, em São Paulo, vinte anos depois de deixar, como corista, a Ópera Brasil dirigida por ele. E, logicamente, ter participado da reabertura do Teatro Municipal do Rio com o Trovador, debutando no papel e no teatro da minha cidade. Demais!!!!

- E os parceiros mais interessantes?

R. E.: Nesta profissão, vamos conhecendo gente muito diversa e particular. Alguns mais simpáticos que outros, naturalmente. O bom disso é poder conviver com gente das mais diversas raças e culturas e aprender sempre um pouco mais deles e das situações. Hoje em dia, existem cada vez menos “divismos”, ou seja, aqueles cantores metidos que acham que podem fazer o que quiserem. Isso hoje em dia é para poucos.

- Quais suas ambições pela frente?
R. E.: Continuar trabalhando dignamente e devolvendo ao público este presente que Deus me deu, minha voz, da melhor forma possível, e ajudando para que a lírica cresça no Brasil e tenhamos cada vez mais espaços e oportunidades para nossos cantores. Existem no Brasil excelentes vozes, que pela falta de incentivo acabam ficando somente no sonho de poder ser.




Edição: Clóvis Marques





Fonte: www.opiniaoenoticia.com.br

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