Brahms zen

          Qual o peso da autossugestão na percepção musical? Até que ponto o que vemos e sabemos de um maestro interfere no que ouvimos? Brahms(imagem) pode ser menos ou mais forte ou emocionante conforme o reja um jovem sanguíneo ou um velho sábio?

          As perguntas vêm da estranha experiência de ouvir outro dia a Primeira e a Segunda Sinfonias do bruxo de Hamburgo sem exaltação nem vibrato emocional, em concerto da Sinfônica Brasileira regida por Kurt Masur no Teatro Municipal do Rio.
         Já vamos pela vigésima sétima ou oitava visita do grande maestro alemão à orquestra onde conheceu sua mulher na década de 70. Masur começou com a OSB em 1970, num ciclo completo das Sinfonias de Beethoven, e já reincidia no ano seguinte – recém-nomeado diretor musical da Gewandhaus de Leipzig, onde ficou até 1996 – com a primeira integral das Sinfonias de Brahms que deu por aqui.
         Desde então, esteve no Brasil outras vezes também com a Gewandhaus e a Filarmônica de Nova York, que dirigiu de 1991 a 2002. Suas ligações permanentes na década de 2000 foram com a Filarmônica de Londres e a Orquestra Nacional da França.
          Minha companheira no concerto do outro dia é – acreditem – infensa a Brahms. Diz que não a toca! Ela me lembrou, por sinal, da pilhéria da plaqueta encontrada certa vez na sala de concertos de uma orquestra americana: “Pode entrar, sem risco de Brahms!”
Semanas atrás, eu me emocionei às lágrimas ouvindo a mesma OSB acompanhar uma pianista russa no Concerto nº 1 de Brahms: por mais que o ouça, parece que estou sempre fazendo contato pela primeira vez com esse maesltrom de sentimentos e emoções.

          As Sinfonias tendem a impressionar mais pela arquitetura portentosa e o ethos hercúleo, aqui e ali banhados em ternura melancólica ou alegria máscula. Mas a sensação de pureza quase branca que emanou das interpretações de Masur na sexta-feira me deixou embatucado.
          Será que por não esperar do regente vigor e drama – ele está com 83 anos – eu mesmo evacuei insensivelmente essas qualidades de sua interpretação? A musicalidade sem truques nem ostentação expressiva de Masur é que terá dado a impressão de que seguíamos um passo a passo de plena presença, mas timorato, sem progressão dramática? O velho leão estaria cansado e atento apenas ao momento?
          Depois de um Allegro inicial que, na Sinfonia nº 1, pareceu um pouco estrito e uneventful, o movimento lento foi moldado com sumarenta brandura, o terceiro (Un poco allegretto e graziozo) mostrou a calma exultação das madeiras e o Allegro final não podia ter sido cinzelado com mais maciça gravidade, com uma dinâmica forte que se poderia dizer germânica, cheia e sem medo, mas sem prejuízo dos contornos nem esquecendo o rebuscamento das contravozes. Um daqueles momentos em que a gente ouve a OSB se superando no rumor coletivo e nas nervuras individualizadas.
          A Segunda ganhou ainda mais em refinado burilamento, com um primeiro movimento luminoso e muscular e a prodigiosa expressividade do Allegretto grazioso, onde cada coisa saiu a seu tempo e lugar, com um acabamento, uma leveza e uma cursividade rítmica – uma vitalidade, em suma – que falavam de viver sem pensar nem programar.
          Obra de gênio impregnado de sabedoria contemplativa, mas o coração não bateu mais depressa. Onde o ardor e a expectação, o heroísmo anelante dessa música? Um Brahms quase zen, sem ansiedade mas sem palpitação, que me deixou sem argumentos com minha convidada.



Respostas às perguntas feitas por Clóvis Marques aos músicos da OSB sobre o trabalho com Kurt Masur, do spalla Pablo de Leon e da flautista Cláudia Nascimento:


Pablo de Leon

          Estou oficialmente na OSB desde o segundo semestre do ano passado. Anteriormente, era convidado ocasionalmente para spallar alguns programas que tinham solos. Toquei com o Masur somente no festival de Campos do Jordão em 2007, quando liderei a orquestra dos bolsistas.
          Ele se comunica de forma clara, direta e objetiva. Nos ensaios também não usava a partitura, pois todas aqueles milhares de informações que lá existem estão em sua cabeça… dando-lhe o direito de nos corrigir com precisão o que não vemos com a parte na nossa frente. Fazia isso de várias formas, cantando, regendo, dançando ou contando uma simples história.
          Um exemplo se deu quando os cellos tinham um tema belíssimo e o Masur disse que a linguagem usada para tocar deveria ser completamente diferente. “Eu quero sonhar e não acordar…Vocês estão falando alto, não me acordem do sonho!” Nesse momento, a música foi para outro nível, pois a textura e a cor do som mudaram completamente.
          Sei que a escolha do repertório se deu pelo grande caso de amor que o Masur tem pela OSB e pelo Rio de Janeiro. Aqui conheceu sua esposa e, segundo seu filho, que dividirá um programa pela primeira vez com o pai, é disso que trata esse repertório: amor!
Em relação às sinfonias de Brahms, aprendemos todos que não existem “detalhes” em um conjunto de obras de tamanha magnitude. Tudo é de relevante importância para que se receba essa enorme quantidade de informação que reflete todo tipo de sentimento humano.


Cláudia Nascimento

          Estou na OSB há dois anos e meio.
          Em 2007, participei de um concerto em que tocamos a Sinfonia nº 1 de Mahler, e foi muito emocionante. Eu já tivera a oportunidade de tocar com Masur uma outra vez no Festival de Campos do Jordão, em 2005.
          É muito interessante trabalhar com ele, pois vemos e sentimos a música. Mesmo se ele não falasse, ainda assim entenderíamos o que ele gostaria que fizéssemos. Ele foi exigente durante toda a semana, para que pudéssemos chegar a um resultado mais do que satisfatório.
          Tenho um exemplo algo engraçado: num dos meus solos, ele me pediu que tocasse mais expressivo, bonito, dizendo que naquele momento eu deveria me sentir a garota de Ipanema, andando pela praia quase que me exibindo. Claro que nesse momento a orquestra inteira riu. Ele é sempre muito espirituoso, usando muitos exemplos e metáforas do nosso país e da nossa cidade, como a beleza natural, o clima e a alegria que temos.
          Em poucos dias, ele nos fez entender como se deve tocar Brahms: com uma sonoridade intensa, frases longas muito expressivas, mas ao mesmo tempo com muita doçura. Com certeza nunca mais tocarei Brahms da mesma maneira.




fonte: http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/musica/brahms-zen/?ga=dtf

Nenhum comentário:

Postar um comentário