Do classicismo ao pós-moderno, passando pelo romantismo e as raízes brasileiras, pude ouvir estes dias a fluida elegância de Antonio Meneses em repertórios variados.
Em CD gravado na Inglaterra no fim do ano passado (Avie/Clássicos), ao lado da excelente Northern Sinfonia inglesa, ele associa os dois Concertos de Haydn a um Concertino para violoncelo e orquestra de cordas em que seu conterrâneo pernambucano Clóvis Pereira (nascido em 1932) explora modalismos e ritmos locais em idioma contemporâneo acessível e melódico, com forte cheiro de terra.
Antonio Meneses (imagem)
No Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Meneses tocou semana passada as Variações rococó de Tchaikovsky e, sempre acompanhado da Orquestra Petrobras Sinfônica regida por Carlos Prazeres, o Concerto para violoncelo e sopros de Friedrich Gulda.
Estreada em 1980 com Heinrich Schiff e a Filarmônica de Viena, esta é uma obra que enriquece o repertório lindamente – embora não necessariamente do ponto de vista do cello. De início, é preciso um esforço de adaptação para ouvi-lo amplificado eletronicamente: depois das finas e quase palpáveis granulações cultivadas por Meneses num Tchaikovsky de delicada homenagem ao mundo clássico, passávamos a uma sonoridade entubada que sacrifica boa parte da beleza, da textura, dos matizes do instrumento…
Mas na mistura de gêneros e estilos do Concerto de Gulda (1930-2000) – o célebre pianista/improvisador que frequentava com a mesma intimidade Beethoven e o jazz – há uma vitalidade irresistível. Direto na imaginação melódica e culto no trabalho instrumental com sopros, contrabaixo, guitarra e bateria acompanhando o solista, Gulda alterna breque jazzístico rasgado e pastoralismo no primeiro movimento, uma berceuse e uma valsa rápida num segundo movimento evocando deliciosamente a tradição das orquestras de harmonie da Europa Central. Depois de um longo recitativo do cello e de um minueto e trio visitando paisagens medievais ou mediterrâneas, o final é uma sacudida festa-baile com a banda no coreto de uma praça do interior austríaco.
Se a programação dessa peça falava de vida correndo nas veias do solista e da orquestra, o disco Haydn/Pereira é uma festa para os fãs de Meneses e de seu instrumento. A Northern Sinfonia aparentemente não toca com instrumentos antigos, mas incorporou a leveza enxuta – mas não seca – do melhor estilo de época. Regida pelo solista, ela parece ideal num Haydn todo de relevo e equilíbrio, candura e expansividade.
Modulado ou elétrico, enérgico ou cantante, Meneses por sua vez dá um banho de espontaneidade associada a pleno controle – para não falar do show de precisão nos movimentos rápidos. E o Concertino de Pereira é uma agradável surpresa, afirmando com tranquilidade uma personalidade forte desde o primeiro movimento, com suas escalas modais, o tema de boiadeiro entoado pelo solista no segundo e o galope festivo do último – onde parece curiosa uma ambientação ibérica que também pode ser das raízes pernambucanas.
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Depois de sofrer uma cirurgia num dos pulsos no fim do ano passado, Antonio Meneses resolveu trabalhar durante a recuperação num livro de memórias (ele está com 53 anos). Resultado de entrevistas com João Luiz Sampaio e Luciana Medeiros, o livro será publicado no segundo semestre pela Algol Editora, acompanhado de um CD que o músico está gravando em São Paulo. Os autores gentilmente autorizaram a reprodução do trecho inédito abaixo, que fala justamente de um primeiro contato de Meneses com os Concertos de Haydn, aos 13 anos, no Rio de Janeiro:
“Os desafios iam surgindo sem que Antonio se desse conta do que acontecia. ‘Aquela sensação natural, a dúvida sobre conseguir ou não tocar determinada peça, isso só viria muito mais tarde, é curioso. Naquele momento, não percebia limites no que eu estava fazendo. O desafio existia, mas não me preocupava com ele, passava batido. Lembro de um dia em que abri o armário do meu pai no Teatro Municipal e vi uma coleção de peças para violoncelo, que ele provavelmente guardava para me dar só mais adiante. Entre elas, havia um concerto de Haydn e fui falar com ele. “Pai, posso tocar este aqui?” “Ah, meu filho, você ainda vai ter que comer muito feijão para tocar essa peça.” O que eu fiz? Roubei a partitura, levei para casa e comecei a aprender escondido. Eu não possuía ainda a técnica para tocar aquilo, não tinha intimidade com as regiões mais agudas do violoncelo, que ali eram fundamentais, mas fui procurando, catando milho, que nota é essa?, onde fica?, achei! Teimoso, fiquei repetindo, repetindo, até ficar mais ou menos. E resolvi levar para a aula. Dona Nydia [Soledad Otero, sua professora na época] também achava que era cedo demais para Haydn, mas concordou em ouvir: ‘Até que não está mau, mas precisamos melhorar’. Dominei o suficiente para tocar o primeiro movimento, aos 14 anos, no concurso da TV Globo. Ganhei, e fui aprender o resto da peça, porque o primeiro prêmio incluía um concerto com a Orquestra Nacional, com transmissão da TV. Além do aprendizado musical, esses episódios foram também aos poucos me tornando um pouco mais conhecido.”
Antonio Meneses e OSB: Dvorák, Concerto p/ Cello, 1º Mov. B
fonte: http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/musica/meneses-aterrado-e-voando/?ga=dtf
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